domingo, 18 de outubro de 2009

vão

vão me despir,
me abrir, me cozinhar
me engolir, morder
me mastigar
vão me beber,
vão me sorver, se embebedar
me estudar, me resolver
vão me adorar
e me parir, me socorrer
me aninhar
vão me abortar
me odiar, vão me bater
me apagar
me repelir, me rechaçar
fugir de mim
me adotar
me enlouquecer, me traduzir
vão me perseguir, me depredar
vão me culpar
me esquecer, vão me deixar

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Azia s.f

Tenho um fogarel no meu peito… Há lava saindo pelos meus poros, enchendo de calor a minha casa. Não tenho ar-condicionado. Meu ventilador está quebrado. Eu queria que um rio, muito de repente, desaguasse em mim - mas nem água.

sábado, 10 de outubro de 2009

Obrigado, Meu Deus

Deus, obrigado pela casa
pela comida, pela Maria
pela conta de energia paga
obrigado pela vida rasa

Obrigado, Deus, pelo carro
pelo trabalho, pela mobília
pelo silicone que pus na minha filha
obrigado pelo escarro

Deus, obrigado pelo siso
pelos falsos amigos, pelo conhaque
obrigado pelo prosac
pela gravata, pela bravata
pela ameaça

E - pela falta de alívio -,
Meu Deus, muito obrigado pelo suicídio!
Por uma questão de salário, a gramática rompeu com o dicionário.

Bicho

Nestas quentes tardes frias,
não sou nem tenho nada...
Se me restava alguma poesia,
derramei na madrugada.
Acordei ao meio-dia
sem nenhuma novidade...
Teria dormido o dia todo
se pudesse agüentar,
mas acontece que meus sonhos
estão fora do lugar -
enquanto durmo,
penetro no meu próprio vazio
não agüento: corro, fujo
eu sou um bicho tão sozinho.

Natal ferve em feroz febre.
Passamos dos quarenta graus.
Tudo vai mal,
eu fico;
meço esforços comigo.
Há tanta violência em ser fodido!
Então, eu me divido
entre a inconsistência dos meus sorrisos
e a fúria da insistência em seguir sorrindo.

Vou sair...
Preciso tomar algum trago de juízo.
Tem uma bodega na esquina
da avenida quatro com a Jaguarari,
quem toma conta é uma menina
que quando me olha sorri.
Ela tem cabelos ruivos
e olhos tristes,
quase não sei que ela existe...
Minha dama do submundo...
Eu sou um bicho tão imundo!

Acho que peguei a contramão,
pena não poder voltar atrás.
Tarde demais, agora não -
eu já fechei todas as portas.
Acho que vou virar mendigo,
pedinte, mulambo, palhaço triste.
Não duvide, meu bem, da dor que existe!

Há tanto delírio em ser quem sou,
tenho fugido do meu martírio
brincando de ser minha própria dor
materializada.
A rua não me dá mais nada,
mas sigo indo...
Correndo, parando, seguindo.

Eu vou me afogar num mar de qualquer coisa!
Não vou nem lavar a louça,
hoje não tem sobremesa!
Deixei a luz da sala acesa,
não desliguei a TV...
Há fantasmas no sofá.
Acho que agora vou chorar...
Eu sou um bicho triste!

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

A Arte de te Consumir

Para Civone,

Vou me abuletar na sua língua.
Seja minha íngua,
Ferida aberta, cicatriz
ou queimadura, me faça infeliz
Seja impura!
Seja minha cura, minha doença
me seja imensa -
me diminua, me pise, me cuspa
e volte nua...
Deite com a lua,
com a rua, e com o espectro de quais outros homens
de quem tiveres fome.
Quiero quedar-me exangüe,
fugir-te, despir-me de ti...
Quero que tu te arranhes,
te danes, me dane...
Quero que tu me ames
e que eu tente fugir.
Preciso não conseguir!
Quero poder cheirar-te
até viciar-me
na arte de te consumir!
Da mesma forma de antes
que você seja meu câncer,
me roce, me coce e se aposse de mim!

terça-feira, 28 de julho de 2009

Sempre que tento ser prosaico, eu descubro o quão poeta sou.